
Bióloga da UFRJ dedicou quase 30 anos de pesquisa a uma descoberta que pode mudar o tratamento de lesões na medula espinhal
Durante décadas, a medicina tratou as lesões graves na medula espinhal como irreversíveis. Para milhares de pessoas paraplégicas e tetraplégicas, o diagnóstico vinha acompanhado de uma sentença definitiva: a perda permanente dos movimentos. Essa realidade começou a mudar graças à persistência e dedicação de uma cientista brasileira.
A bióloga e professora TATIANA SAMPAIO, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é a responsável pela descoberta da polilaminina, uma molécula capaz de reconstruir conexões nervosas rompidas. Em testes preliminares, seis de oito pacientes voluntários recuperaram movimentos. Um dos casos mais emblemáticos é o de um paciente que estava paralisado do ombro para baixo e voltou a caminhar sozinho.
Uma vida dedicada à ciência
A trajetória da polilaminina começou em 1998, no Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ. A pesquisa partiu do estudo da laminina, proteína natural do organismo humano que auxilia na conexão entre os neurônios. A partir desse conhecimento, Tatiana e sua equipe desenvolveram uma versão modificada em laboratório, capaz de estimular a regeneração dos axônios estruturas responsáveis por transmitir informações entre o cérebro e o restante do corpo.
Foram quase três décadas de trabalho contínuo, marcadas por dificuldades financeiras, cortes de verbas e descrença científica. Ainda assim, a pesquisadora seguiu adiante, sustentada pela convicção de que a regeneração neural era possível.

Avanço histórico
Produzida a partir da placenta humana, a polilaminina apresentou resultados considerados históricos. Dos oito voluntários que participaram dos testes iniciais, seis recuperaram algum nível de movimento, superando expectativas médicas.
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início oficial dos testes clínicos em humanos para avaliar a segurança do tratamento. Nesta fase, cinco voluntários recebem a proteína diretamente na área lesionada da medula, com o objetivo de estimular a formação de novos circuitos nervosos.
Além do impacto humanitário, a descoberta também entrou para a história da UFRJ ao gerar o maior valor em royalties já registrado pela instituição: R$ 3 milhões, divididos entre os inventores e a universidade em 2023. Apesar do reconhecimento, cortes orçamentários impediram a manutenção da patente internacional da tecnologia.

Quem é Tatiana Sampaio
Carioca e apaixonada pela biologia desde a infância, Tatiana construiu toda a sua formação acadêmica na UFRJ. Mestre e doutora pela instituição, acumulou experiências internacionais nos Estados Unidos e na Alemanha e tornou-se professora universitária aos 27 anos.
Hoje, aos 59, é referência em regeneração neural e segue à frente do laboratório que coordena a pesquisa da polilaminina. Também desenvolve estudos com animais para tratar lesões crônicas e participa de iniciativas voltadas à aplicação de células-tronco na medicina veterinária.
A trajetória da cientista é marcada por persistência e compromisso com vidas que, até pouco tempo atrás, eram consideradas sem possibilidade de recuperação.
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